Vivemos cercados por expectativas. No trabalho, espera-se produtividade e eficiência, enquanto na vida pessoal carisma e estabilidade. Para atender a essas exigências, nos diferentes ambientes, criamos personagens sociais, versões de nós mesmos adaptadas para cada ocasião. A isso, damos o nome de persona.
O termo vem do latim “persona”, que significa “máscara”, utilizada originalmente no teatro greco-romano para representar papéis sociais e emocionais. O psiquiatra Carl Jung retomou esse conceito em sua obra “Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo”, definindo a persona como aquilo que mostramos ao mundo para sermos aceitos, reconhecidos e admirados.
A persona na vida profissional
No ambiente profissional, a persona costuma ser construída a partir de competência, disciplina e desempenho. Existe uma expectativa silenciosa sobre como devemos agir: parecer produtivos, inteligentes, disponíveis e emocionalmente equilibrados. Muitas vezes, não importa o que sentimos internamente, mas aquilo que conseguimos performar externamente.
Vivemos numa lógica de hiper desempenho, em que o indivíduo se transforma em produto de si mesmo. A pressão constante por performance faz com que as pessoas explorem a si próprias em busca da validação externa a partir do nível de produtividade. Nesse contexto, a persona profissional deixa de ser apenas adaptação social e passa a funcionar como mecanismo de sobrevivência, quase como uma regra social não dita.
A persona na vida pessoal
Na vida pessoal, a persona aparece de forma mais emocional. Muitas pessoas constroem versões idealizadas de si mesmas para evitar rejeição: a pessoa forte que nunca demonstra fragilidade, a engraçada que esconde tristeza ou a independente que nunca pede ajuda.
O sociólogo Erving Goffman também aborda essa ideia em “A Representação do Eu na Vida Cotidiana”, comparando a vida social a um teatro. Para Goffman, os indivíduos interpretam papéis diferentes dependendo do ambiente em que estão, controlando gestos, falas e comportamentos para construir determinadas impressões sociais.
O indivíduo se estabelece em ser apenas o papel social que representa, abandonando sua complexidade para corresponder às expectativas externas. As diversas facetas existentes na nossa vida contemplam toda nossa vivência no percurso de viver, elas nos moldam a partir do interno e externo.
O perigo de viver apenas como personagem
A persona não é necessariamente negativa. Ela permite adaptação social, facilita a convivência em diferentes ambientes e promove autoconhecimento. O problema surge quando a máscara se torna mais importante que a própria identidade.
Segundo Jung, quando o indivíduo se identifica excessivamente com sua persona, acaba se afastando de si mesmo, perdendo autenticidade e confusões na própria identidade. Emoções são reprimidas, vulnerabilidades são escondidas e a necessidade de aprovação externa passa a definir quem a pessoa acredita ser.
No fim, a questão talvez não seja abandonar completamente as personas, mas perceber quando elas deixam de ser proteção e passam a ser prisão. Afinal, toda máscara usada por tempo demais corre o risco de se tornar um rosto e quanto mais tempo colado na pele será difícil remover, mas não impossível.
No Espaço Ética, acreditamos na construção de indivíduos em harmonia com o seu lado pessoal e profissional. O professor Clóvis de Barros convida você a refletir sobre como as empresas podem entender melhor a individualidade de cada profissional e a descobrir como a filosofia pode contribuir para relações mais conscientes, humanas e éticas.